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Bem-vindo ao Pfizer's JournalClub! Aqui, especialistas se reúnem bimestralmente para discutir artigos científicos relevantes em microbiologia com foco nas infecções bacterianas.
Nosso objetivo é promover o aprendizado contínuo, atualização científica e a melhoria da prática clínica. Conheça o nossos especialistas e junte-se a nós nessa jornada.
Nosso painel de especialistas:
Pedro Fernandez del Peloso - CRBio‑RJ 716002
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Ilana Camargo - CRF-SP 104117
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Nesta última edição do Journal’s Club, para darmos continuidade ao debate sobre as bactérias gram-negativas resistentes aos carbapenêmicos – em inglês carbapenem-resistant gram-negative bacteria (CR-GNB), trouxemos duas recentes publicações relevantes sobre testes de suscetibilidade antimicrobiana e seu impacto em pacientes com infecções da corrente sanguínea.
The EUCAST rapid disc diffusion method for antimicrobial susceptibility testing directly from positive blood culture bottles1
Um dos principais desafios da microbiologia clínica é a rapidez na obtenção de resultados laboratoriais. Embora cada vez mais testes rápidos de sensibilidade aos antimicrobianos (TSA) estejam sendo lançados, muitos deles exigem investimentos significativos em treinamento, equipamentos e insumos. Para contornar parte desse problema, a EUCAST padronizou um método TSA rápido diretamente de frascos de hemocultura positivos, com tempos de resposta variando entre 4 e 8 horas, dependendo da espécie bacteriana.
Esse método, denominado RAST, visa enfrentar o desafio da demora nos resultados laboratoriais, especialmente em pacientes com infecções graves na corrente sanguínea, onde a escolha rápida e adequada do antibiótico é essencial. Além disso, RAST é baseado no tradicional método de disco-difusão, amplamente utilizado nos laboratórios, o que facilita sua implementação, já que não requer grandes investimentos em novos equipamentos ou treinamentos. Isso torna a técnica mais prática e econômica, utilizando materiais que já estão disponíveis em um laboratório padrão de microbiologia.
Este artigo mostra a primeira padronização do RAST do EUCAST, cujos objetivos eram (i) o método ser válido para patógenos e agentes BSI relevantes; (ii) o tempo para resultados ser menor do que um dia de trabalho padrão; (iii) os materiais estarem disponíveis em um laboratório de microbiologia padrão; (iv) o método ser fácil de executar e controlar; (v) deveria ser independente do sistema de hemocultura; e (vi) estar disponível gratuitamente no site do EUCAST. Um método TSA rápido deve produzir resultados em menos de 8 horas para ter impacto significativo. RAST pode fornecer resultados a partir de 4 horas dependendo da espécie da cultura.
A partir de então, foi possível inocular um volume indicado direto do frasco de hemocultura na placa de Mueller Hinton ágar com o auxílio de um swab, aplicar os discos com antibióticos indicados e incubar de acordo com o microrganismo identificado.
O estudo que avaliou o RAST demonstrou que os resultados para cinco dos principais patógenos envolvidos em sepse podem ser lidos com segurança a partir de 4 horas de incubação, aumentando ainda mais a confiabilidade com o passar do tempo. A precisão do método é reforçada pela baixa taxa de erros na interpretação de resistência e suscetibilidade. Além disso, foi estabelecida uma "Área de Incerteza Técnica" para evitar a interpretação de resultados incertos quando há muita variabilidade no crescimento bacteriano, o que aumenta a confiança no diagnóstico.
Há recomendações importantes quanto ao tempo do sinal positivo do frasco e o processamento do RAST, é essencial manter o frasco a temperatura adequada até esse processamento (não retirar o frasco do aparelho até estar tudo pronto para realizar o teste). As zonas de inibição foram lidas após 4, 6 e 8 h (com variação de ±5 min) neste artigo; e todas as zonas foram lidas na parte frontal da placa com a tampa removida.
Com este estudo, novos pontos de corte foram estabelecidos para as espécies estudadas, ou seja, ao realizar o RAST, não se utiliza a tabela geral de pontos de corte clínicos com a qual todos estão acostumados. O EUCAST publicou um documento específico com pontos de corte para o RAST em seu site. O método foi complementado posteriormente a este artigo e hoje há uma padronização para as seguintes bactérias: Escherichia coli, Klebsiella pneumoniae, Acinetobacter baumannii, Staphylococcus aureus, Enterococcus faecalis, Enterococcus faecium, Pseudomonas aeruginosa e Streptococcus pneumoniae.
As leituras de crescimento bacteriano com bordas nítidas devem ser feitas em 4, 6 ou 8 horas de incubação – nesta ordem, exceto para P. aeruginosa para a qual as leituras devem começar em 6 horas. Caso não seja possível realizar a leitura nos horários indicados, a placa pode ser incubada e a leitura feita no próximo horário indicado. Se não for possível realizar a leitura em nenhum desses horários, ainda há a opção de leitura após 16 horas de incubação e, se necessário, após 20 horas. Após esta padronização, o EUCAST publicou seu documento e o BrCAST o traduziu para que todos tenham acesso a estas informações sobre o RAST.
No fim das contas, essa metodologia oferece uma solução prática e econômica para laboratórios clínicos, já que utiliza equipamentos e insumos que eles já têm, além de ser mais flexível do que outros métodos que estão por aí. A implementação desse teste pode fazer uma diferença enorme no tempo de resposta e, consequentemente, na vida dos pacientes, principalmente os mais graves, que precisam de uma terapia eficaz o mais rápido possível.
Evaluating the impact of rapid antimicrobial susceptibility testing for bloodstream infections: a review of actionability, antibiotic use, and patient outcome metrics2
Esta revisão discute várias métricas descritas na literatura para medir o impacto do teste de sensibilidade aos antimicrobianos (TSA) rápido. Ela explora como o tempo de resposta mais rápido desses testes pode melhorar a escolha e o ajuste de antibióticos, otimizando o tratamento e evitando o uso prolongado de antibióticos de amplo espectro.
O TSA convencional baseado em cultura (fenotípico) demora de 24 a 48 horas. Com isso, cerca de 20% a 30% dos pacientes com infecções de corrente sanguínea recebem um tratamento antibióticos inadequado, sendo que mais da metade desses pacientes recebem antibióticos de amplo espectro e menos da metade têm um organismo resistente isolado. Isso pode ter consequências graves, incluindo aumento da mortalidade. Há vários métodos rápidos no mercado, em desenvolvimento ou em estudos clínicos, que prometem diminuir esse tempo para o resultado para 1 a 8 horas.
Mudar o método para um “teste rápido” é suficiente para se obter um “resultado rápido e melhor”? Os autores revisaram e resumiram oito métodos fenotípicos que entregam resultados em menos de 8 horas e discutiram as seguintes métricas para medir o impacto do TSA rápido: acionabilidade, exposição a antibióticos e desfecho do paciente. Além disso, o artigo destaca a importância da otimização do processo e do fluxo de trabalho e seu efeito nas métricas usadas para avaliar o sucesso da implementação do TSA rápido.
Um ponto de vista importante foi o da acionabilidade, ou seja, o quão rápido o resultado pode ser acionado e, neste caso, a rapidez ou frequência de mudanças no tratamento atribuídas ao resultado dos testes. A acionabilidade visa proporcionar um tratamento ideal o mais rápido possível, utilizando o antibiótico com a ação mais restrita possível baseada no TSA, sem a necessidade de modificação do antibiótico ou testes adicionais. O impacto disso? Menos uso de antibióticos de amplo espectro desnecessariamente, menos complicações com infecções secundárias, como Clostridioides difficile, e redução na resistência antimicrobiana.
Fica claro que a implementação de novas tecnologias também depende da realidade financeira e do fluxo de trabalho de cada instituição. Após verificar melhora na performance de um novo teste quando comparado com o método em uso, há sempre a necessidade de o laboratório justificar financeiramente a mudança, pois um TSA rápido poderá exigir uma metodologia para rápida identificação do patógeno, pessoas capacitadas para realizar o teste em todos os turnos (que deverão revisar e liberar os resultados do turno anterior), cobertura ideal de 24 horas por dia, 7 dias por semana, e um meio de comunicação rápido dos resultados.
O artigo ressalta que a implementação desses testes deve estar integrada a programas de gestão de antimicrobianos (AMS), garantindo que os resultados sejam interpretados adequadamente. O tratamento ideal a partir de um TSA rápido somente será possível se houver um rápido fluxo de informação do resultado ao clínico, que muitas vezes está além do controle de quem fez o teste rápido. Além disso, o ideal é que o teste também seja compatível com a tecnologia da informação (TI) e cyber segurança do hospital/laboratório. Nem todos os laboratórios trabalham nestas condições.
Outros pontos levantados na revisão são para os laboratórios que prestam serviços para vários hospitais: 1) estes devem otimizar o tempo de recebimento da amostra a partir do momento da coleta antes de implementar um TSA rápido; 2) avaliar o papel do TSA rápido (o laboratório pode identificar o paciente e implementar estratégias para testes mais direcionados?); 3) verificar se o teste vai ser custo-efetivo. Além das vantagens destas métricas, os custos devem ser levados em consideração.
Novas intervenções devem demonstrar custo-efetividade ou custo-benefício para serem sustentáveis e fornecer benefícios a todas as partes interessadas. Segundo os autores, para muitas instituições, a mudança para um teste rápido requer demonstrações de impacto clínico por meio de melhorias nos resultados do paciente e/ou econômicos.
Até o momento, o impacto clínico do TSA rápido foi demonstrado em alguns estudos observacionais, mas os ensaios clínicos randomizados não foram suficientemente poderosos para validar muitas dessas descobertas. Consequentemente, estudos prospectivos devem se concentrar em relatar os resultados clinicamente mais significativos. Não basta o TSA ser rápido por si só, validação e padronização de métricas devem apresentar outro foco para pesquisas futuras.
Um forte abraço!
Ilana Camargo e Pedro Peloso
Referências:
1. Jonasson E, Matuschek E, Kahlmeter G. The EUCAST rapid disc diffusion method for antimicrobial susceptibility testing directly from positive blood culture bottles. J Antimicrob Chemother. 2020;75(4):968-978.
2. MacVane SH, Dwivedi HP. Evaluating the impact of rapid antimicrobial susceptibility testing for bloodstream infections: a review of actionability, antibiotic use and patient outcome metrics, J Antimicrob Chemother. 2024;1(79):i13–i25.
PP-ZVA-BRA-0745
Forte abraço
Pedro Peloso e Ilana Camargo
Referências
1. Madigan M, Martinko J, Bender K et al. Microbiologia de Brock. 14ª ed. Porto Alegre: Artmed; 2016.
2. Lakbar I, Singer M, Leone M. 2030: will we still need our microbiologist?. Intensive Care Med. 2023;49(10):1232-4.
3. Signoroni A, Ferrari A, Lombardi S et al. Hierarchical AI enables global interpretation of culture plates in the era of digital microbiology. Nat Commun. 2023;14(1):6874
4. Bailey AL, Ledeboer N, Burnham CD. Clinical Microbiology is growing up: the total laboratory automation revolution. Clin Chem. 2019;65(5):634-43
5. Baker KR, Flentie K, Spears BR et al. Multicenter evaluation of the Selux next-generation phenotyping antimicrobial susceptibility testing system. J Clin Microbiol. 2024;62(1):e0054623.
6. Flentie K, Spears BR, Chen F et al. Microplate-based surface area assay for rapid phenotypic antibiotic susceptibility testing. Sci Rep. 2019;9(1):237.
PP-ZVA-BRA-0536
PP-ZVA-BRA-0585
Discussão acerca de situações em que deve-se investigar qual o tipo de carbapenemase em bactérias resistentes aos carbapenêmicos.
PP-TGA-BRA-0376
PP-TGA-BRA-0428
Diretamente da bancada do Dr. Thomás Chagas Neto (CRBM-SP 9364), veja boas práticas na realização de testes fenotípicos para detecção das carbapenemases.
PP-ZVA-BRA-0585
PP-UNP-BRA-6638
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